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Quando os cientistas fraudam (extraído do blog do Prof. Dr. José Palazzo Moreira de Oliveira http://palazzo.pro.br)

Science & Vie
Nov. 2008
n. 1094, p. 56-69

56 FRAUDE SCIENTIFIQUE
Etudes biaisées, expériences trafiquées, résultats falsifiés…A côté de cas célèbres de fraude scientifique, les “pratiques douteuses” semblent s’accumuler dans les labos. Pourquoi certains chercheurs franchissent-ils alors la ligne rouge ? Que faire pour l’éviter ? Voici notre enquête dans les coulisses de la science.


O número de Novembro de 2008 da revista francesa Science et Vie apresentou um artigo de fundo sobre a Fraude Científica, com o subtítulo: uma investigação nos bastidores dos laboratórios. Com todos as denúncias de corrupção na política brasileira temos a tendência de relaxar a atenção na ética na pesquisa. Acreditamos que os cientistas são, inerentemente, mais sérios; engano, total e completo. Este artigo apresenta uma visão chocante da realidade nos laboratórios. Nesta crônica mostro uma síntese das idéias e fatos descritos no artigo.
Na fraude científica existem os “grandes criminosos” e os “pequenos delinqüentes“. O grande problema é que se for permitido que a cultura de que os pequenos delitos podem ser aceitos a ética começa a ser erodida e, aos poucos, a fraude se instala nos laboratórios. Sou otimista e creio que a maioria dos pesquisadores, a menos de uns poucos patologicamente criminosos, é correta e gostaria de assim permanecer. A fraude é estimulada por dois fatores: i) a impunidade e ii) uma pressão irrealística de avaliação que hoje é representada pela busca pelo Santo Graal Acadêmico da indexação ISI, do QUALIS e associados. Na crônica anterior tratei da avaliação das diferentes formas de publicação, este foi o tema de uma palestra na CAPES e outra na Universidade de Paris XIII, na Escola Doutoral Galilée: a idéia é que TODAS as publicações, independente do meio, podem ter qualidade. A idéia é que a qualidade é algo intrínseco à publicação, ao seu mérito, e não ao veículo de publicação.

Precisamos, e rapidamente, entender que a avaliação de um pesquisador (lembrem-se que pesquisadores são pessoas) deve ser realizada pelo valor da sua obra e não exclusivamente sobre indicadores numéricos e bibliométricos. Um dos comportamentos inadequados, criados por esta pressão copiada dos USA  e conhecida como publish or perish,  a que somos forçados é a técnica do salame: transformar um artigo bom e completo em tantos artigos pequenos quanto possível (nos bares baratos procuram fazer fatias tão finas quanto possível de um salame para render mais). Qualidade é um conceito subjetivo que está relacionado diretamente às percepções de cada indivíduo. Diversos fatores como cultura, modelos mentais, necessidades e expectativas influenciam diretamente nesta definição. A qualidade é algo que tem profunda base ideológica. Não existe uma definição fixa, perfeita e imutável de qualidade. Há enormes interesses econômicos e de poder em criar definições de qualidade que: (i) privilegiem os países centrais, (ii) permitam que pesquisas financiadas pelos governos se transformem em lucros de companhias editoras privadas, (iii) mantenham o status quo.

Em artigo publicado sobre a avaliação do comportamento ético na área da biologia, publicada pela revista Nature em 2005, um terço dos pesquisadores aceitou declarar haver desenvolvido práticas duvidosas. A fraude científica se apresenta sob a forma de três delitos principais: a Fabricação de dados, quando o pesquisador cria totalmente os dados experimentais para validar suas hipóteses; a Falsificação de dados, quando os dados experimentais são manipulados de forma a se tornarem adequados para justificar a hipótese testada e o Plágio, quando se apropria de trabalhos de outros pesquisadores ou equipes sem os citar. Estas formas de fraude são conhecidas pela sigla FFP. Além destes desvios de comportamento há outras atitudes desaconselháveis como destruir os dados originais, esconder parte de resultados não adequados aos interesses do pesquisador, não indicar um conflito de interesse, ou exercer abuso de poder sobre um estudante.

Os problemas principais para identificar e punir os desvios de conduta é que a sua caracterização é difícil e, além disto, a existência de um espírito de corpo que impede a acusação. Casos exemplares já foram detectados e punidos, no artigo da Science & Vie alguns destes casos são citados. Apresento, a seguir, a lista e a busca Google que permite um conhecimento mais detalhado dos casos.

  1. Shinichi Fujimura (2000): arqueólogo japonês, criava peças e as enterrava para depois divulgar publicamente suas “descobertas”. Foi internado por doença mental.
  2. Willian Summerlin (1974): biólogo de Nova Iorque, criou uma técnica de transplante de tecidos entre espécies sem que ocorresse nenhuma rejeição. Foi declarado como “sofrendo de graves problemas emocionais”  e teve o salário mantido por um ano para terapia antes de seu desligamento definitivo do laboratório.
  3. Woo-Suk Hwang (2005): biólogo sul-coreano, anunciou a criação de células tronco embrionárias a partir de células humanas da pele, perdeu seu cargo na universidade e foi impedido legalmente de trabalhar sobre clonagem humana. Atualmente foi aceito em outro laboratório e trabalho sobre clonagem animal…
  4. Jan Hendrik Schön (2002): físico alemão trabalhando na Bell Labs, em 2001 publicou um artigo por semana em revistas, uma pesquisadora verificou que uma curva publicada por ele sobre transistores já havia sido publicada anteriormente, a aprtir dai a fraude foi identificada.
  5. Mais casos “picantes” (em Francês)

Em 2007 foi organizada em Lisboa a primeira conferência sobre a integridade científica organizada pela Fundação Européia para a Ciência e pelo Escritório da Integridade na Pesquisa norte-americana. Vamos realizar uma aqui no Brasil?

The European Science Foundation (ESF) and the US Department of Health and Human Services Office of Research Integrity (ORI) have organised the first World Conference on Research Integrity in Lisbon, Portugal (Calouste Gulbenkian Foundation,
16-19 September 2007). The Research Integrity World Conference was supported by the European Commission and hosted by the Portuguese Ministry for Science, Technology and Higher Education (MCTES), through the Portuguese Foundation for Science (FCT) and the Gabinete de Relações Internacionais da Ciência e do Ensino Superior (GRICES) in collaboration with the Calouste Gulbenkian Foundation (FCG), as part of the forthcoming EU Portuguese Presidency….

Research Integrity has emerged in recent years as a critical topic in policy research and has gained significant political and public attention worldwide. To further world dialogue on this topic, the World Conference has focused attention on systemic and institutional issues, including organizational, governance and legal issues. A parallel activity by the OECD Global Science Forum (GSF) is studying governmental responses to the issue of research misconduct.

Creio que está na hora de nossas sociedades científicas começarem a tratar seriamente deste problema que aumenta devido às pressões sobre os pesquisadores. Estas pressões podem ser:

  1. Publicar e publicar para não morrer, é o critério simplista de que o impacto de suas publicações que prevalece sobre suas carreiras e progressões;
  2. Valorizar as suas carreiras fazendo com que suas pesquisas se transformem em aplicações comercializáveis, e
  3. Participar de uma ação de marketing acadêmico e científico tratando desafios de comunicação que não compreendem e administram profissionalmente.

Quanto mais forte a pressão maior o risco de “descarrilamento”. Os jovens cientistas são mais sensíveis a este risco, todos nós conhecemos casos de jovens pessoas competentes não contratadas por não terem um artigo QUALIS A1 ou A2 nos três últimos anos. A visão geral é que para uma carreira bem sucedida são necessários resultados excepcionais e logo. “Mas o problema não é, essencialmente de perfis psicológicos mas de situações de risco que aumentam nos últimos dez anos” como diz Martine Bungener, delegada adjunta para a integridade científica do INSERM (artigo em Francês da revista La Recherche).

É preciso tratar com coragem este problema. Este texto de Jean-Pierre Bourguignon, no artigo referido da revista Science & Vie, me parece elucidativo:

“Ce qui est le plus inquiétant, à mon sens, c’est que les comités d’évaluation, au lieu de lire les travaux des chercheurs, s’en tiennent à une sorte d’analyse de leur impact. Pourtant, le fait qu’un article soit très cité par d’autres chercheurs n’est pas forcément positif! II peut être au contraire pointé pour ses faiblesses. La massification nous fait dépendre de plus en plus de systèmes très automatisés; or moins les gens auront lu les articles, les auront critiqués, auront une opinion réelle, plus la situation deviendra fragile” “O que é mais perturbador para mim, é que as comissões de avaliação, em vez de ler os trabalhos dos pesquisadores, se orientam para um tipo de análise do seu impacto. Portanto, o fato de que um artigo é altamente citados por outros pesquisadores, não é necessariamente positivo! Pode ser referenciado, ao contrário, por suas fraquezas. A massificação nos faz depender mais e mais de sistemas altamente automatizados, ora quanto menos as pessoas terão lido os artigos, menos terão os criticado, menos terão uma opinião real, mais frágil a situação ficará.”

Alguns pontos a ponderar, por um lado garantir um comportamento ético desde as aulas e por outro lutar contra a pressão inadequada de avaliação que está se desenvolvendo no mundo.

  1. Cobrar e exigir comissões de ética em sua instituição para assegurar que “Espera-se que cada aluno obtenha seu grau baseado exclusivamente na avaliação de seu esforço e trabalho pessoal. Conseqüentemente qualquer forma de conversa em exames, ou plagiarismo em trabalhos, constitui-se em fraude inaceitável e em desonestidade passível de punição”.
  2. A avaliação da qualidade é um fenômeno cultural, não uma ferramenta tecnológica. É preciso avaliar um pesquisador por sua produção total e não por apenas um critério quantitativo.
  3. Popularidade não é qualidade. É preciso que a qualidade da produção seja analisada. Bastam os cinco ou dez melhores artigos e resultados acadêmicos de um pesquisador para que uma avaliação de qualidade possa ser realizada.
  4. A qualidade deve ser medida, também, pelo impacto da pesquisa na sociedade, tanto culturalmente como pela modificação dos meios de produção. Isto é uma avaliação qualitativa e quantitativa onde se incluem as publicações, produtos e processos, orientações, inserção internacional, e reconhecimento pelos pares.
  5. Uma solução simplista de contagem automatizada da qualidade de um trabalho medida pelas citações não avalia a real qualidade e é fortemente influenciada por interesses sócio-políticos e poderio econômico de editoras internacionais.
  6. A pressão, cada vez maior, por uma dita “produção qualificada”, sem que tenhamos clara definição dos motivos para esta “produção”  ser assim classificada, cria situações de risco, principalmente para os jovens pesquisadores que precisam iniciar uma carreira estável.
  7. A falta de um estágio de longa duração (no estilo tenure)para que os pesquisadores iniciantes possam demonstrar a sua competência em todas as dimensões como autonomia, capacidade de obtenção de recursos, formação de pesquisadores, interação com a indústria e publicações de qualidade é um elemento que aumenta a pressão para critérios draconianos na entrada da carreira.
  8. Outros países estão tratando seriamente do assunto, quando nós vamos começar a tratá-lo?

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